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Impressões de Miróbriga, 1998 PDF Imprimir e-mail
Escrito por Maria Filomena Barata   
02-Mar-2007
IMPRESSÕES DE MIRÓBRIGA
Encontro-me em Miróbriga. Espreitando o fim do dia, deixo-me invadir pelo cansaço e pela luz que se esbate sobre as ruínas. O sossego e o silêncio anunciam já a noite, e só junto à capela de S. Brás se podem espreitar os últimos raios de Sol. Apenas se ouve vozes quase que surdas de um grupo - são os elementos da equipa que aqui tem partilhado os dias de trabalho! Oiço-os como que murmurando ou cantando uma canção intemporal. Talvez falem de um Alentejo sem tempo nem lugar. São eles que fazem deste sítio e da sua paisagem um local vivo e que agora se recatam para dar lugar à tranquilidade dos finais de tarde.Junto-me a eles silenciosa. Pergunto-me:Afinal que importância pode ter hoje para nós, Homens que somos do final do milénio, uma “Cidade do Passado”?Que implicações pode ter num Presente que sabe tão voraz? São estas ruínas como que um reduto da memória e da paisagem que o envolve?Centenas de vezes me tenho questionado. Outras tantas tenho tentado responder. Não que tenha quaisquer dúvidas, mas porque gostaria de poder continuar a partilhar este lugar.Este século, recheado que foi de progressos tecnológicos e científicos, como a conquista do espaço que, por um lado, nos fez sentir grandes, porque julgámos tocar aquilo que apenas pertencia aos divinos - o céu - deu-nos, por outro, uma dimensão mais exacta da nossa pequenez num universo cuja latitude estamos longe de conhecer.A medicina descobriu a cura de males que se imaginavam intratáveis, mas o final da centúria espreitou-nos pleno de angustiantes questões por resolver.Inventou-se a possibilidade de comunicarmos com todos os pontos do globo através de processos informáticos de facílima utilização. Mas, no entanto, grande parte da população mundial continua a não saber ler nem escrever.Assistiu-se à manipulação genética e pudémos ver o primeiro ser vivo replicado, contudo estamos muito longe de poder vislumbrar os efeitos dessa manipulação.Se, por um lado, os Homens que partilharam do século XX puderam construir cidades que, pelo brutal crescimento demográfico, se tornaram verdadeiros hinos à nossa capacidade de adaptação, por outro, a dimensão que atingiram e os problemas a ela associados tornaram-nas quase que inabitáveis.Os grandes conflitos armados do século - as duas Grandes Guerras - e as consequências que tiveram nos recursos humanos, físicos e ambientais pareciam-nos quase já História. Mas uma guerra tão próxima, cujos contornos ainda não conseguimos entender, veio reacender os temores dos Homens do Mundo Ocidental. Nela se jogaram o desmantelamento das ideologias, das Nações e das economias consideradas por alguns próximas do “ideal”. Contudo, com a guerra da ex-Juguslávia vimos crescer velhos ódios e a História e a Religião serviram como alibis para justificar cruéis ajustes de contas entre vizinhos da mesma cidade. Por outro lado, os fundamentalismos religiosos parecem querer, em alguns pontos, substituir as cruentas lutas ditas “ideológicas” ou de regime.O acelerado crescimento demográfico e económico, que assentaram o seu desenvolvimento na consolidação de uma forte produção industrial com a consequente exacerbada produção e consumo de bens, rapidamente se sobrepuseram à natureza, provocando o esgotamento de muitos dos recursos naturais.As crises políticas e sociais que atravessaram o século contribuíram também para uma instabilidade galopante, quase tão, ou mesmo mais, intensa do que o bem-estar produzido pela democratização dos valores ou dos bens de consumo.É assim que o Passado, a História e, portanto, o Património se tornaram como que uma espécie de valores estáveis, com uma importância vital para equilibrar uma sociedade em mutação permanente. Uma espécie de reduto ou memória, onde os Homens através da partilha conjunta, de um pequeno ou grande grupo podem sossegar, porque nem qualquer dos regimes políticos conhecidos, nem os novos avanços tecnológicos conseguiram resolver duas questões fundamentais: a distribuição mais equitativa dos recursos e um crescimento mais concertado.Porque, se por um lado, algumas das ditas conquistas do século quase fizeram crer que tudo éramos capazes de influenciar ou dominar, atitude que contribuiu para que tudo quiséssemos fruir apressadamente, ao ponto de se pôr em risco o equilíbrio Homem-Natureza, como bem o demonstraram alguns dos desastres ecológicos a que assistimos, por outro, foi-se interiorizando a necessidade de fomentar uma consciência mais harmoniosa entre os seres, orgânicos ou inorgânicos, que partilham a vida na Terra.Desde sempre, é óbvio que sim, o Homem interferiu na Natureza. É aliás essa intervenção que o distingue dos outros animais, moldando a Cultura.O desenvolvimento das sociedades alterou, em muito, os ecossistemas outrora implantados, originando aquilo a que se pode chamar o “Ecossistema  Humano”. Só que esse processo viveu, durante milénios, de um maior equilíbrio entre os Homens e as regiões onde habitavam, pois a Natureza constituía a base em que assentava a sua sobrevivência.A cidade romana de Miróbriga e o aglomerado pré-romano que a precedeu são disso um exemplo. Do xisto e no xisto os Homens proto-históricos construíram um povoado fortificado, erguendo muralhas. Dentro dos seus muros edificaram casas, aproveitando as pedras que havia nas zonas limítrofes.Posteriormente, os Romanos ocuparam esse mesmo local, tornando-se incomparavelmente maior a área edificada.Cortando e aplanando a rocha edificaram patamares artificiais sobre os quais se construiu uma cidade em socalcos. Na zona mais baixa, e aproveitando possivelmente os recursos hídricos, implantaram balneários para homens e mulheres. Estruturaram bairros onde os habitantes viviam e as zonas comerciais onde se transaccionavam os produtos.Intervieram e transformaram o território envolvente, fomentando uma produção agrícola mais intensiva e introduzindo novas espécies. Desenvolveu-se o cultivo das oliveiras, das árvores de fruto e da vinha.À volta de Miróbriga, cujos vestígios dispersos ocupam uma área de aproximadamente 8/9ha, instalaram-se casas agrícolas.Desenvolveu-se a exploração mineira e a actividade metalúrgica, como se pode comprovar da concentração de escória de ferro em quase todo o aglomerado urbano.Criaram-se locais públicos, onde, por alturas das festividades que se realizavam no hipódromo, deveriam acorrer os habitantes de próximas ou de longínquas paragens, pois as corridas de cavalos eram uma das formas mais apreciadas de espectáculo entre os Romanos, tendo também colaborado na romanização dos indígenas.De Miróbriga ou da sua vida apenas nos falam agora os seus vestígios arqueológicos e os textos gravados em inscrições.Mas cada uma dessas pedras, cada fragmento de telhado ou de um pequeno objecto cerâmico ou metálico, é mais um testemunho que contribui para melhor a conhecer.Hoje reduzida a fragmentos ou a restos, é um facto que ela deixa de ser uma “Cidade Morta” cada vez que um estudioso, um veraneante, um aprendiz sobre ela se debruçam.A cidade, aparentemente morta, acorda do seu mutismo e vem, muito devagar, falar-nos das suas histórias e das suas memórias.Só que para isso acontecer é necessário um tempo de descoberta que é quase silencioso, porque não se compadece com as descobertas sensacionais, com demasiados ruídos em redor, ou com atitudes de um olhar massificado.A cidade, essa cidade cheia de mistério, exige tempo e silêncio para poder falar de si.Tal como os templos, os parques, os rios e as florestas, ou outros sítios mágicos, desta cidade podemos partilhar, mas sempre capazes de silenciar para lhes poder ouvir os segredos. São sítios onde apenas podemos penetrar com o cuidado que se deve ter com tudo que nos faça lembrar que, para além dos nossos prazeres individuais, há tantos outros que temos que aprender a lidar como se tratassem de um bem comum. E o direito ao Tempo, à Memória e ao Silêncio são, de facto, valores comuns.Por isso a necessidade de ao falarmos da preservação das memórias, termos indubitavelmente que falar também da conservação da paisagem envolvente.Por isso é importante que, para além das suas pedras, das suas casas, dos seus templos se conserve em Miróbriga o seu silêncio, para que a brisa, ao fim da tarde, a deixe espreitar altaneira a serra e o mar com que sempre conviveu.Talvez este seja um apelo desesperado, de um final de século, que nos reduziu a tão poucos os locais de paz e de silêncio. Admitimos que sim, que quase é um grito pelo direito a podermos serenamente partilhar e aprender com este local de silêncio que será o reduto de memória que queremos deixar aos vindouros.
Filomena Barata Miróbriga, Março de 1998    
 
 
Actualizado em ( 21-Mar-2007 )
 
 

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