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A Estrutura viária e as habitações de Miróbriga PDF Imprimir e-mail
Escrito por Maria Filomena Barata   
01-Jun-2007

A estrutura viária e as habitações conhecidas em Miróbriga

 Pelas características peculiares do urbanismo de Miróbriga, não é possível visualizar qualquer resquício de uma malha urbana definida por eixos viários principais - cardo e decumanus -, como é comum nas fundações latinas de plano ortogonal.
No entanto, os arruamentos conhecidos permitem-nos delinear o espaço ocupado por algumas das insulae da cidade onde se instalam aedificia privata e definir os percursos de acesso a alguns dos seus núcleos polarizadores, como é o caso das opera publica conhecidas em Miróbriga - o forum e as termas. O forum deveria ser circundado por uma rede viária que constituía como que uma espécie de «circunvalação», permitindo o crescimento do casario em anéis concêntricos (ALARCÃO, 1990: 465) que, a alguns níveis, mais lembram algumas malhas urbanas medievais. Ao longo dessas calçadas e entre elas desenvolviam-se os quarteirões onde se implantavam  as áreas comerciais e habitacionais. A maioria desses quarteirões estão apenas relativamente clarificados, como acontece na zona por onde se faz a entrada actual nas ruínas. Uma ampla calçada estrutura uma área habitacional, que se desenvolve quer para Norte quer para Sul da mesma. Do lado sul constata-se que as casas se adaptam à pendente e que os desníveis são vencidos através de grandes escadas que permitiam o acesso pedonal à via. Muito possivelmente, a uma cota mais baixa, se desenvolveria uma outra via que poderia fazer a ligação, mais a sul, às termas. Continuando pela via inicialmente referida, na direcção do forum, chega-se a um ponto onde a via se ramifica, permitindo o acesso ao mesmo, a Este, aos quarteirões que se desenvolviam do seu lado norte e ainda às termas, a Sul. Junto às termas verifica-se um caso semelhante de bifurcação, porque, por um lado, a calçada acede directamente aos balnea e, por outro, inflecte no sentido de Nordeste, onde poucos vestígios restam, mas que deveria articular uma segunda plataforma que circundava, do lado sul e este, o forum. Perto das tabernae implantadas a Sul do forum, vencendo também uma enorme pendente, é visível uma calçada que, também ela, deveria fazer uma circunvalação à zona central da cidade. Todos os troços de calçadas conhecidos são construídos com grandes lajes assentes directamente no afloramento xistoso ou sobre o solo, e carecem de qualquer tratamento para a sua colocação ou seja statumen e rudus. Medem, em média, 10-11 pés de largarem alguns pontos, as calçadas apresentam rebordos laterais isolados com opus signinum, nomeadamente na que desce em direcção às termas. Julgamos que a sua funcionalidade poderá ser a de contribuir para a impermeabilização na zona da entrada[1] das tabernae e habitações, que se situam ao longo desta via construída em declive. Não existem quaisquer vestígios de, sob o opus, haver canalizações de evacuação laterais em materiais cerâmicos ou outros[2].Noutros casos, ao longo das calçadas, foram construídas as condutas dos esgotos em opus incertum pavimentadas com lateres, como acontece na «área habitacional», junto da entrada actual das ruínas, e do lado sudoeste do forum, onde apenas restam alguns vestígios da via pública. Estes esgotos deveriam ser cobertos com laterae ou tegulae, mas não existem quaisquer vestígios dessas coberturas. As construções que se desenvolvem quer a Oeste quer a Este do forum, são infelizmente mal conhecidas, mas os vestígios identificados permitem-nos admitir que também aí existiria uma zona comercial e habitacional, confirmada arqueologicamente com várias edificações localizadas a nascente e poente  do mesmo, algumas das quais parcelarmente postas a descoberto por D. Fernando de Almeida. Uma construção desenvolvida em torno de um atrium, que foi também parcialmente escavada pela equipa luso-americana, a  nordeste do forum, e de que há apenas uma pequena referência publicada (BIERS, 1988: 24), e a existência de colunas que delimitam uma zona porticada fazem-nos aceitar a possibilidade de se tratar de uma habitação. Um outro núcleo de construções, localizadas junto às termas, foram publicadas por Maria de Lurdes Costa Artur, na década de 40, como tratando-se de habitações, estando actualmente, na sua maioria, de novo soterradas. No entanto, ao longo do troço de calçada que se dirige às termas, são visíveis de um lado as tabernae, a que já nos referimos, noutro trabalho; do outro, há vários indícios de soleiras de portas e vestígios de muros alinhados. De um lado e do outro da calçada que se encontra logo à entrada actual das ruínas, são visíveis várias insulae, que parecem ter tido uma ocupação sucessiva entre os séculos I d. C. (CAEIRO, 1985: 129) e o século IV d. C. Dessas escavações coordenadas por José Olívio Caeiro, nos anos 80, na área limítrofe à capela de S. Brás, apenas existe uma pequena notícia (CAEIRO, 1985: 128-129), tendo sido algumas das pinturas a fresco publicadas pela equipa de Missouri. Apesar do conhecimento incipiente das zonas habitacionais existentes nessa área, pode-se verificar que as insulae dessa zona são de métricas diferentes, em função das ruas e acessos públicos, variando entre 25 a 30 m[3]. As escadarias que se desenvolvem  a sul desta delimitam claramente insulae, em torno das quais se pode ainda ver o respectivo sistema de esgotos. A sua organização adapta-se perfeitamente à topografia do sítio, indo o casario sendo implantado em plataformas artificiais, que desde o ponto mais alto, onde se implantará a Capela de S. Brás, a Norte da via, até à zona mais baixa, a Sul da mesma, formam como terraços. Algumas das construções conhecidas a Sul dessa via tinham água canalizada, como se pôde verificar aquando dos trabalhos de limpeza e de restauro efectuados numa «casa com frescos». Junto à entrada da casa havia um pequeno tanque, possivelmente para aprovisionamento de água que era depois conduzida por uma tubagem de chumbo. Nesta casa e, mais especificamente, no compartimento decorado com estuques pintados a fresco o pavimento é de opus signinum. A Este desta construção, ao longo da via, quer do lado norte quer do Sul da mesma, são visíveis vários muros dispersos, devendo tratar-se de habitações. No entanto, como todos eles foram postos a descoberto, em anteriores trabalhos arqueológicos, através de valas abertas paralelamente aos mesmos, nada se pode concluir, porque nenhuma planta está clarificada. A equipa luso-americana admitia a hipótese de uma das estruturas - localizada junto do local onde a via bifurca para as termas - poder ser identificada como um pequeno templo, atendendo às  suas fundações (BIERS et alii, 1988: 13). Efectivamente essa construção, localizada junto a um talude, apresenta muros de grossura superior à que é comummente utilizada na arquitectura doméstica, mas o desconhecimento em relação à sua planta não nos permite avançar qualquer hipótese quanto à sua funcionalidade. A DOMUS LOCALIZADA NA ZONA LIMÍTROFE DA CAPELA DE S. BRÁS Mais a Oeste, do lado norte da via, iniciámos em 1996 uma escavação numa área que já havia sido parcialmente assinalada pela equipa luso-americana, e que veio a revelar a existência de uma domus, cujos compartimentos se desenvolvem em torno de um átrio. Este átrio tinha uma zona coberta, como o comprovam a concentração de telhas no local e os entalhes definidos no afloramento xistoso que deveriam servir para apoiar o telhado. O pavimento da zona circundante do átrio era revestido a opus signinum, ainda visível em alguns pontos. Na zona central, subdividida num segundo momento da ocupação da casa, poderia ter existido uma pequena zona ajardinada. Por seu lado, os pavimentos das salas que se desenvolvem em seu redor deveriam ser feitos com traves de madeira, pois não existe qualquer vestígio de revestimento e o afloramento xistoso é bastante irregular, o que aliás deveria acontecer em muitas das residências localizadas nesta área. A evidência de vários orifícios circulares escavados no xisto, na residência que escavámos, assemelhando-se a «buracos de poste», mas distribuídos sem qualquer aparente regularidade, contribuem para colocar esta hipótese. Numa destas concavidades estava perfeitamente conservada, ao nível da rocha de base, que havia sido escavada, em período romano, para o efeito, uma tigela ou patella invertida[4] contendo no seu interior ossos de pássaro, que pensamos poder tratar-se de um ritual fundacional. Uma situação paralela detectou-se também na casa cuja escavação se terminou em 1999.Num dos compartimentos paralelos à calçada, à entrada da casa, e que possivelmente se trataria de uma oficina de metalurgia[5], até porque se detectou uma grande concentração de escória de ferro, foi posta a descoberto, por cima do afloramento xistoso, um sistema de drenagem construída com imbrices encaixados uns nos outros, que escoava para a rua. Essa drenagem passava por debaixo de um dos muros que definem o limite sul da casa, junto à soleira da porta de entrada. Em alguns dos compartimentos desta construção são visíveis estuques, mas não foram ainda identificados quaisquer indícios de pinturas a fresco. A casa encontra-se praticamente ao nível das fundações, à excepção de alguns muros mais altos construídos em opus incertum. Pode-se daí deduzir que as pedras devem ter sido roubadas e reutilizadas, porque há poucos vestígios de derrube das mesmas, ao contrário do que acontece com os materiais de construção cerâmicos dos telhados - imbrices e tegulae. Ainda atendendo aos muros conservados com uma maior altura e pertencentes à mesma construção, nada nos permite concluir que pudessem os restantes ter sido edificados em adobe ou taipa. Os materiais arqueológicos entretanto exumados atestam uma ocupação que vai do século I ao século IV d. C., tendo mesmo sido encontrado um numisma republicano. Esta casa poderia ter tido dois pisos, porque se adossou, do lado oeste, uma escada, que deveria dar também serventia às construções que se desenvolvem num plano mais elevado, a Noroeste da habitação. Dessas edificações foram já postos a descoberto alguns muros, cujas fundações são ligeiramente «enterradas» no afloramento xistoso, que foi escavado para permitir uma maior estabilidade ao edifício. Entre a calçada, que se desenvolve a Sul, e a soleira da porta de entrada da «construção de átrio» que escavámos, existe um pavimento em opus signinum, desaparecido em grande parte, que permitia um acesso mais confortável e higiénico à mesma. É junto a esta zona que desaguavam as águas drenadas pela conduta de imbrices anteriormente referida. A escavação na íntegra desta casa e das adjacentes é fundamental, pois só ela permitirá a compreensão de uma insula de Miróbriga. É, no entanto, de salientar que a planta da casa em escavação é paralela à da capela de S. Brás, edificada, a Noroeste, ao lado e sobre estruturas romanas, devendo pertencer ao mesmo programa urbanístico. Os restos de uma casa romana, escavada por José Olívio Caeiro nos anos 80, e que são ainda visíveis junto à capela, pertenceriam, portanto, a um conjunto residencial mais vasto que se estendia do lado norte da calçada,  adaptando-se ao declive natural do terreno. Numa área recentemente adquirida, a Oeste da actual entrada de Miróbriga, iniciaram-se, em 1997, trabalhos arqueológicos, tendo sido feitas algumas sondagens para averiguar da possibilidade de aí ser construído o «Núcleo Interpretativo». À superfície foi encontrada uma moeda de Marco Aurélio e, já pertencente a um nível arqueológico bem selado, de fundação de algumas construções, foi encontrado um outro, cunhado em Mérida no reinado de Augusto. Esta área, cujas construções nos parecem estar articuladas com a «área residencial», pois obedecem à mesma orientação das casas localizadas na área limítrofe da capela de S. Brás, se bem que entre as duas zonas devesse haver uma outra via.  Desta via restam ainda algumas lajes, que são visíveis junto a um caminho de terra batida, por onde se acede do lado poente à zona adjacente às termas. Junto a uma dessas construções, em fase final de escavação, detectou-se uma enorme concentração de escória, associada a uma terra barrenta que foi sujeita a alta temperatura, porque se encontra cozida, como se de terracota se tratasse. Deveria tratar-se, também, de uma zona onde existiam ateliers metalúrgicos[6].Nessas construções em fase final de escavação detectou-se também a existência num dos vários buracos ao nível do afloramento xistosos, sobre o qual deveria assentar o pavimento. Pelo numisma augustano anteriormente referido e por alguns fragmentos de cerâmica campaniense, pode deduzir-se que a ocupação desta área do oppidum romanizado se deverá ter processado desde bastante cedo, não conferindo, portanto, à zona onde foi implantado o forum (o único local onde apareceram in situ materiais da Idade do Ferro) o papel único de polarizador de crescimento de Miróbriga em período de dominação latina, pois essa intervenção monumental é mais tardia. ALARCÃO, Jorge de, 1990, «O Domínio Romano», Nova História de Portugal, Editorial Presença, Lisboa. CAEIRO, José Olívio, 1985, «Miróbriga - 1982. Santiago do Cacém», Informação Arqueológica, n.º 5, Lisboa, pp. 128-129.

 

 
Maria Filomena Barata, IPPAR

 

[1] A exemplo do que se verifica em Itálica (LUZÓN NOGUÉ, 1982: 94, fot. 3).

[2] Como por exemplo acontece em Pompeios (ADAM, 1989: 259).

[3] As insulae de Bracara Augusta têm uma modulação quadrada, medindo aproximadamente 150 pés (44,33m) com uma área construída de 1 actus  - aprox. 120 pés =  35 m - (ALARCÃO et alii, 1994: 74). Um outro módulo havia sido apontado por Vasco Mantas (75x80 m), através da análise estereoscópica de fotogramas da cidade de Braga, que seriam provavelmente subdivididos. As insulae de Beja têm aproximadamente 40x80 m, medidos entre os eixos das ruas, e o módulo das de Évora deverá ter sido o mesmo (ALARCÃO, 1990: 462 e 1992: 80). Vasco Mantas  havia proposto um valor de 2 actus = aproximadamente 70 m (MANTAS, 1987: 42). Para as insulae de Beja propõe, portanto, uma média de 35x75 m (MANTAS, 1990: 86). As de Conimbriga têm 25 m, parecendo adaptar-se aos quarteirões do oppidum pré-latino, tal como todo o urbanismo da cidade romana, que «parece um compromisso entre um traçado pré-romano e um alinhamento novo definido pelo forum de Augusto» (ALARCÃO, 1992: 90). As insulae de Tongobriga parecem formar um quadrado com cerca de 34 m de lado (DIAS, 1997: 78). As de Corduba têm 35 m entre os cardines e as de Itálica variam consoante a separação entre as ruas situando-se entre 115,70x57,20 m, 113,90x39,10 m e 114,50x75,20 m (LUZÓN NOGUÉ, 1982: 85). A Ampúrias latina tinha insulae de 1x2 actus   (35x70 m), ocupando o forum o espaço de 4 insulae (ARBULO, 1992: 27).

[4] Para a  tigela ou patella de calote esférica recentemente encontrada em Miróbriga existem inúmeros paralelos, podendo referir os espécimes provenientes de necrópoles romanas do Alto Alentejo publicadas sob a designação de «taças» por Jeannette Nolen (NOLEN, 1985: 100), o de Conímbriga, publicado nas Fouilles com o número 979 (ALARCÃO et alii, 1975, V: 121) e os da necrópole de Gulpilhares, publicados com os números 35 e 36 (LOBATO, 1995: 44). Aparecidos também em Miróbriga são dois exemplares de características muito semelhantes e que se encontram em depósito no Museu Municipal de Santiago do Cacém. Leite de Vasconcelos dá-nos notícia de «uma tigela de barro grosseiro, cuja forma é o protótipo das nossas Malgas» (VASCONCELOS, 1914: 318 e Fig. 44), pertencente a uma colecção particular e proveniente do concelho de Santiago do Cacém, que aparenta ter semelhanças com  a taça  exumada nas escavações de 1995.

[5] Em Tongobriga foi também detectada no interior de uma construção uma oficina de metalurgia (DIAS, 1997: 79).

[6] Cruz e Silva havia, no entanto, referido a existência de fornos siderúrgicos de grandes dimensões: 2,30 m de diâmetro e 4,60 m de altura (Album Alentejano: 1057).


Actualizado em ( 04-Jun-2007 )
 
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